domingo, julho 30, 2006

É Arte Não Indústria

Quem se indigna com a não creditação do sample de Bailare não percebeu minimamente o disco F de Falso e ainda está a jogar dentro do tabuleiro de xadrez. Nós já estamos a jogar fora há algum tempo.

A intenção do disco é precisamente baralhar todos esses conceitos autorais instituidos.

Não existe aqui nenhuma tentativa de interpretação mas de apropriação

Nós utilizaremos sempre os samples que nos apetecer saibamos ou não a quem pertencem.
Isso é absolutamente irrisório

A indignação pelo uso do sample é já história antiga e pelos vistos está longe de ter a compreensão de muitos. Foi o que aconteceu outrora quando os pintores deixaram de ser figurativos, o sample é também uma nova linguagem que está longe de ser regida por qualquer tipo de regras instituídas e institucionais como direitos autorais e coisas do género.

O que interessa é o objecto que está entre mãos e não a origem das peças.

É a mesma lógica que atravessa o ready-made de Duchamp e o cut-up de Burroughs.

A técnica de cut-up, ou o método da escrita por cortes baralha textos de proveniências várias, ao acaso, distorcendo as suas regras de construção canónicas. Pega-se num escritor qualquer, copiam-se trechos de um texto e, ao copiar, associem-se outros textos acrescentados.

A técnica da mistura na sua maior pujança. Pergunta-se: de onde veio? Qual o objectivo?

Mas o que é que isso interessa?!

A reutilização de materiais é comum na arte e na literatura do século 20.
O processo nunca foi interrompido desde então, mas é importante notar que no fim dos anos 60 altera-se a relação entre a produção artística e a indústria do entretenimento, que se torna a principal referência cultural urbana.
O reaproveitamento descontextualizado de produtos prossegue, William Burroughs inventa o cut-up; Roy Lichtenstein e Andy Warhol criam a arte pop. A apropriação é já uma prática criativa comum.
Ao retirar objectos e afins do seu contexto original, o artista atribui novo significado ou transfere o seu valor cultural. Os materiais reutilizados questionam os limites da criação e sua autoria. Na apropriação, o objecto estrangeiro é incorporado na obra, mas o novo contexto implica outro sentido, resultado do gesto (anti) autoral proposto.
Há uma inversão do papel de autor e existe um romper com o conceito de artista, entendido como herói e, por outro lado, recuperar o sentimento anónimo e colectivo do fazer artístico

Seja nas artes visuais, seja na literatura, na apropriação não é a obra que vai fazer o “nome” do autor. É o nome do artista que vai lhe dar sentido. O autor funciona como motor de uma fábrica (re)criativa

Era ridículo exigir a um dadaista que creditasse as coisas ou que respeitasse os direitos de autor ou a ética instituida

É estranho exigir isso a quem se sente desestimulado a criar por uma imposição moral e estética de um cânone, cujas palavras de ordem são o rigor e onde o formalismo técnico e burocrático domina.

É a mesma coisa que questionar a legitimidade de uma opinião num blog de alguém que em termos autorais assine não com o seu nome real mas com um nome fictício tipo Alecrim.

Cumprimentos aos leitores,

Hugo

5 comentários:

Anónimo disse...

Allo allo Monsieurs,

já está disponível a vossa entrevista no blog dos atritos ( www.atritos-sonoros.blog.pt).

Obrigado mais uma vez e boa sorte para vocês!

Bons Atritos,
Lúcia Nunes

Anónimo disse...

Olá, realmente esse tipo de discussão é criativamente altamente castrante, em 2003 fiz um composto sonoro que acompanhou numa pequena edição limitada de um livro chamado "Os ruidos Romanticos de Fausto", na qual samplei dezenas e dezenas de artistas para criar uma realidade sonora nova e que estava intrinsecamente ligada com o livro...se eu pensasse na questão da creditação provavelmente paralisava e nunca teria feito aquela insignificante banda sonora...amigos A CRIAÇÃO É LIVRE. parabens aos Houdini Blues pelo excelente trabalho.Abraço.José Luis

Anónimo disse...

Muita mania para nada.

Hugo disse...

ão ão

Hugo disse...

ão ão ão